ASSINE o Comitê Popular Rio e receba sempre as últimas notícias

BUSCA no Comitê Popular Rio

Contra o Golpe e os Jogos da Exclusão

31 de março de 2016

O Brasil vem passando por um momento muito conturbado politicamente, em que as poucas conquistas democráticas estão claramente sendo ameaçadas por grupos que disputam o poder e que, mesmo estando uma parcela dentro do Estado, não respeitam suas mais básicas instituições.  Diante disso, nós do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas manifestamos nosso repúdio ao golpe de Estado que está em curso no Brasil e a utilização do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e do Poder Judiciário para fins políticos, investigando uns e protegendo outros. Parece-nos que o objetivo é aprofundar uma agenda liberal que visa atacar os direitos dos trabalhadores e favorecer ainda mais o setor financeiro, comprometendo cada vez mais recursos públicos com o sistema da dívida.

Não é de hoje que o Comitê Popular denuncia as diversas violações que colocam em cheque os direitos mais básicos da população brasileira e as conquistas democráticas da nossa sociedade, ameaçadas pelas as relações espúrias entre as grandes corporações, (especialmente as do ramo empreiteiro) e o poder público. Combatemos as diversas violações dos direitos humanos e as ilegalidades que foram cometidas contra a população brasileira em nome dos megaeventos esportivos, que deixaram como principal legado um rastro de remoções forçadas, de ações violentas e impunidade do poder repressivo do Estado, de adequações de direitos da população às vontades de organizações estrangeiras (como a FIFA e o COI), e de corrupção nas diversas esferas administrativas do Estado – que se endividou para construir e/ou desfigurar equipamentos públicos em diversas cidades brasileiras, para depois entregá-los à gestão de empresas privadas. Os megaeventos esportivos serviram como desculpa e como catalisadores de processos que geram cidades cada vez mais excludentes.

A Olimpíada Rio 2016 demonstra como a cidade é tratada como mercadoria, que só importa os grandes projetos que viabilizam grandes financiamentos enquanto a militarização da cidade aumenta, restringindo os direitos da população. A sanção da Lei de Antiterrorismo, viabilizada com a desculpa da necessidade de maior segurança para a Olimpíada, significa mais violência do Estado para impedir protestos legítimos. O assassinato dos jovens nas favelas e periferias de nossas cidades pelas polícias militares demonstram a continuidade do racismo estatal. A falta de investimento em saneamento,  o fechamento dos Estádios Célio de Barros e do Parque Aquático Júlio Delamare, a expulsão da Aldeia Maracanã, a privatização do Estádio de Remo da Lagoa e da Marina da Glória com projetos sem participação dos interessados são os legados desses Jogos da Exclusão. Chega de urbanismo das empreiteiras, dos investidores e da especulação imobiliária. As cidades são de quem mora e constrói sua história nelas. Os governos têm que respeitar a cidadania, ou então não é democracia, é “democratura do capital”.

Entendemos que a corrupção é endêmica ao sistema capitalista e ocorre de forma sistemática desde muito tempo na nossa sociedade, se agravando nos períodos ditatoriais como no pós-Golpe Militar de 1964, quando o esquema de corrupção envolvendo grandes empresas, principalmente empreiteiras, foi enraizado para a exploração e roubo de nossas riquezas e para garantir um esquema paralelo de repressão, tortura e morte dos que lutavam contra este estado de coisas. Lembramos que o avanço do conservadorismo e de políticas liberais não se limita ao Brasil, mas a toda a América Latina e, assim como em 64 está ligado a interesses do grande capital internacional. Para fazer frente a esta situação e a corrupção estrutural do capitalismo a solução passa pela radicalização da democracia.  Por isso apoiamos os jovens que ocupam suas escolas denunciando a situação de precariedade do ensino público e em apoio à greve dos professores, apoiamos as lutas pela moradia e contra as remoções, apoiamos à luta pela manutenção dos hospitais públicos e pelo atendimento da saúde pública de qualidade, apoiamos a luta dos atletas e usuários que foram removidos de seus centros de treinamento, apoiamos as lutas das mulheres e da comunidade LGBT contra o conservadorismo, apoiamos a luta dos camelôs pelo direito ao trabalho, e apoiamos, sobretudo, a participação da população na vida política e a luta pelo direito a cidades mais justas e menos desiguais. Devemos garantir direito de manifestação, de fiscalização dos recursos públicos e de  participação organizada de todos, inclusive dos movimentos sociais, sindicatos e demais organizações da sociedade.

Apesar de todas as violações já listadas acima, que feriram os direitos da população brasileira  e nas quais o governo federal teve significativo grau de responsabilidade – o Comitê Popular entende que os retrocessos dificultam ainda mais os avanços na busca da radicalização da democracia. Defendemos o direito à cidade e entendemos que a corrupção é sistêmica e deve ser combatida com participação popular nas decisões políticas.

Repudiamos também as manifestações cada vez mais escrachadas de movimentos de cunho fascista, que calam, agridem e reprimem de forma violenta as vozes dissonantes da lógica que quer conservar uma sociedade fundada na desigualdade e nos privilégios de poucos. Tal fascismo não é novidade na nossa sociedade. Ele é cotidianamente experimentado pelas populações nas periferias do Brasil, e frequentemente é praticado pelas mãos do próprio Estado e endossado e  incentivado pelas grandes corporações midiáticas – como a Globo, a Record, o SBT, o grupo Folha, a Bandeirantes, etc.

Isto posto, entendemos que já passou da hora de democratizar a comunicação e dar voz e poder para a população brasileira, principalmente, aqueles que vivem nas favelas e bairros periféricos para que possam mostrar sua cultura e seu ponto de vista, sua posição política. É preciso  acabar com o monopólio da mídia empresarial golpista, que distorce, quer calar nossa voz e faz parecer que os interesses das elites correspondem aos interesses de todos. O governo deve combater as remoções forçadas, e não promovê-las – como faz com a comunidade do Horto. e deve urbanizar já a Vila Autódromo, deve investir na despoluição da baía de Guanabara, e das lagoas da zona oeste. Esses deveres devem vir com diálogo com as comunidades.

Afirmamos que somos contra o golpe judicial-midiático e que vai ter luta, pois estamos nessa luta  há muito tempo, contra os diversos males desse sistema capitalista dependente, dentre eles, a corrupção que lhe é estrutural. Mas para realmente mudar esse sistema precisamos de mais democracia, mais participação, mais compromisso com a Justiça social através da solidariedade entre os atingidos pela falta de democracia.

Não Vai ter Golpe!
A saída é pela Esquerda!
#RadicalizaDemocracia

Rio de Janeiro, 31 de março de 2016,
Comitê Popular da Copa e Olimpíadas